A partir de 1830, enquanto avançava, a modernidade foi objeto de uma suspeita crescente, provocada pelo fracasso nos setores da autonomia subjetiva,epistemológica e política, que a própria modernidade havia fundado. Não se chegou a uma avaliação da
sexualidade que fi zesse justiça em particular à especifi cidade da mulher; não se atingiu o domínio equilibrado do cosmos, nem o equilíbrio social, político e internacional. Ao mesmo tempo, novas disciplinas, nascidas com a modernidade ou com a contestação da modernidade, que indicamos sob a denominação genérica de ciências humanas, alimentavam a suspeita ao valorizar dimensões históricas ou estruturais do
homem cuja ignorância ou desconhecimento levaram aos fracassos assinalados.
Esta suspeita muitas vezes atinge extensões consideráveis. Incluimo-la num período ainda maior que a modernidade, declarada afi nal como o “fecho da civilização ocidental”. Este diagnóstico pode levar a resultados totalmente diversos. Um deles é o desejo de um mundo novo: reconstruir pouco a pouco a ética (não-violência, justiça, paz, libertação dos pobres e da mulher), defi nir ações a partir desta perspectiva (no nível político ou não governamental) e procurar uma reorganização política mais justa para as comunidades humanas. Outro é a constatação desesperada
da “era do vazio”, o retorno aos positivismos despersonalizados, não mais no nível da ciência, mas da “comunicação” (estruturalismos exacerbados), num salve-se-quem-puder individualista. Ou então revaloriza-se a “busca espiritual”, sempre vinculada (sob diversas formas) à busca angustiada do Uno: espera heideggeriana; místicas orientais; retorno de Eckhart e da mística apofática no Cristianismo. De todo modo,
impera o regime do pensiero debole e, enquanto isso, a era das grandes sínteses, dos grandes projetos, parece encerrada.
Contudo a suspeita não poderia indicar o fim da modernidade: a modernidade revelou ao homem algumas de suas dimensões imanentes e abriu campo para a criatividade, de modo que em muitos casos se atingiu um ponto de não retorno. A crítica da razão
sufi ciente e liberal não poderia se transformar em rejeição da razão ou rejeição dos setores em que esta razão discerniu o verdadeiro e operou o possível, por
exemplo, na ciência e na técnica e, mais genericamente, nas áreas em que a matemática manifesta sua efetividade. Trata-se antes de saber manipular a suspeita
de modo que os fracassos possam ser superados sem que a modernidade em si seja posta em xeque.
segunda-feira, 3 de março de 2008
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