O mundo social da comunidade de Mateus
J. Andrew Overman
Síntese do Livro elaborado por Carlos Eduardo Cardozo
Introdução
A necessidade de organização de uma sociedade. Sendo essa sociedade resultada das dinâmicas sociais que a cercam.
O livro mostra a organização e os conflitos dos movimentos após a destruição do templo, buscando se legitimar como povo escolhido de Deus. Sendo eles a minoria justa.
A comunidade de Mateus defrontava-se com a necessidade de explicar suas experiências e convicções, frente às outras crenças.
Capítulo I
O cenário e o horizonte dos judaísmos formativo e de Mateus
As influências do contexto histórico correspondente a época de 165 aec à 100 d.c, que marcaram o desenvolvimento, postulações e posteriormente o conflito entre as duas comunidades. O evangelho de Mateus é uma tentativa de compreender a natureza e desenvolvimento de sua comunidade.
Fragmentação e facciosidade: a natureza sectária do Judaísmo.
Agitação social e divisão são registradas nos documentos do período pós-exílico (165 aec à 100 d.c). os governantes selêucidas e a influencia do helenismo, e os abusos dos governantes Asmoneus, a diferença no tratamento aos israelitas, é um exemplo da facciosidade e do sectarismo.
Elementos que provocaram a fragmentação no séc 1: a ocupação romana, as escolas judaicas rivais e a destruição do templo de Jerusalém.
Ao longo desse período as disputas das seitas e facções pelo controle e influência na sociedade, deixavam o cargo de liderança instável, a sorte da liderança e do oprimido mudava sempre. ( isso é importante para o entendimento adequado do judaísmo formativo e de Mateus). Muitas comunidades denunciaram os seus representantes. Ex comunidade de Qumran, afastou de Jerusalem, por meio das escrituras atacava jeruzalem e previa uma vingança divina (guerra santa). A comunidade seria recompensada e as apostasias de Israel seriam castigadas, especialmente as lideranças.
Vários documentos afirmam essa visão das comunidades: segundo o documento de Damasco, Deus escondeu sua face de Israel infiel e do santuário e submeteu a espada. Lembrando da aliança, deixou um resto (comunidade de Qunran) que não foi submetido a destruição. 1Henoc ( mesmo período de Qunran), diz que são corruptos e infiéis e logo serão julgados. Eles são descritos como pecadores, que oprimem os justos e fiéis. Henoc assim como os membros do Mar morto descreve o julgamento dos pecadores e a vingança dos justos oprimidos. Os salmos de Salomão também está relacionado a mesma situação infidelidade de Israel, a salvação dos justos e o julgamento dos infiéis. Deus reunirá um “povo santo” e o conduzirá à justiça.
Todos esses documentos, relatam a comunidade alienada e hostil ao grupo dominante de lideres e seus seguidores, vistos como infiéis e não cumpridores do mandamento.
As pessoas dissidentes dessa comunidade se dizem os verdadeiros seguidores, que receberão uma série de bem-aventuransas por te sidos fiéis a javé e a lei.
Outros documentos que retratam tais sentimentos. 4 Esdras, 2 baruc eles vão usar a palavra “os poucos” referindo a fidelidade de suas comunidades.
Flávio Josefo, vai colocar três facções ou escolas filosóficas entre os judeus: os fariseus, os saduceus e os essênios. Para o objetivo que se propõe o livro é importante a descrição dos fariseus, no evangelho de Mateus e no mundo do qual tanto o judaísmo formativo como o judaísmo de Mateus faziam parte.
Os fariseus teriam unido a Alexandra Salomé e alcançado influência política, eles eram os judeus mais “pios” e pareciam ter melhor interpretação da lei. Os fariseus tinham a confiança do povo e isso para o governo de Alexandra era importante para a conciliação entre ela e a nação. Eles ocuparam a função de administradores reais das questões públicas.
Os fariseus é uma classe respeitada pelo povo, em vários governos, eles desempenharam importantes papeis, e desfrutavam do poder, já em outros eles sofriam os mesmos problemas da classe. O povo era a base de poder e influência para eles se formarem aliança com os governantes.
Podemos observar esse período, como sendo várias comunidades alienadas dos grupos dominantes que desenvolveram suas próprias crenças e esperanças como resultado de suas experiências de alienação e perseguição.
A natureza sectária das comunidades eram claras, quando elas se colocavam como sendo elas próprias a minoria justa, rejeitava o grupo principal ou eram rejeitados por eles, e se opunham ao poder político-religioso de seu ambiente. Eles se viam como povo escolhido de Deus.
Linguagem do sectarismo
As comunidades fazem distinção entre elas próprias e a maioria dos outros em torno de si. As lideranças são responsável, pela lastimável situação que estão vivendo. Usam termos para se distinguir entre os grupos: 4 Esdras 2 Baruc 1 Henoc os Salmos de Salomão todos eles fazem referência aos termos “ímpio” e “justos”.
As comunidades sectárias refletem a inimizade ao grupo principal nos termos depreciativos atribuídos a eles na literatura e nas descrições. Termos estes que definiam bem ambos os grupos. O primeiro sentiam-se perseguidos, não tinham poder político e acusava de falsos lideres o grupo principal, que variava muito de período e de lugar. No fundo a linguagem é a repulsa por quem detinha o poder. Ficando claro o ambiente de competição onde estavam inseridos o judaísmo formativo e a comunidade de Mateus. Mateus adota essa linguagem para legitimar a posição de sua comunidade diante da influência e do impacto do Judaísmo formativo.
Hostilidade à liderança Judaíca
Boa parte da hostilidade e da retórica com alta carga emocional dessas comunidades sectárias era dirigida à liderança judaica. As lideranças variavam de período para período em cada comunidade. Para os sectários, as lideranças tinham traído o povo, desviando de Deus e por isso atraiu as provações que as pessoas estavam vivendo.
Tudo esta relacionado a corrupção das lideranças, a simbologia que retrata isso, é o gesto das chaves no período pós-70 referindo-se a falha dos sacerdotes nas suas funções,
No lamento pela destruição, eles são orientados a jogar a chave para o céu e pedir a Deus que guardasse as chaves, pois eles foram falsos guardiões. Essa simbologia também foi usada no século II na destruição de Jerusalém.
Essa atitude hostil em relação às lideranças, não é exclusiva do período pós-70 mas de todo o período de 165 aec à 100 Dc.
Todos os eventos terríveis ocorridos neste período, seria a prova da corrupção de suas lideranças. Neste contexto está também o evangelho de Mateus.
A Centralidade da Lei.
Cada comunidade busca legitimar a sua afirmação de verdadeiro povo de Deus.
Alei era campo comum e ao mesmo tempo campo de batalha. Pois cada um buscava nela sua legitimação e ao mesmo tempo a usavam para denunciar seus adversários. Só o respeito a lei podia manter a aliança. Isso se tornou uma obrigação nas comunidades, especialmente em Qunran. Cada comunidade acreditava ser ela a melhor interprete da lei. O autor algumas comunidades de deformar a lei. Nos vários escritos podemos perceber o uso da lei contra as autoridades (Qunran, Henoc, Salmos de Salomão, Baruc, Esdras. Vemos aqui foi usada pelas comunidades como meio de legitimação.
O futuro do povo da aliança de Deus
Os conflitos e acontecimentos importantes foram vistos pelas comunidades Sectárias, como sendo a vingança divina de sua posição e como rejeição de Deus e seus oponentes.
Os escritos dessas comunidades descrevem a maioria infiel e rejeitada de Israel, mas Deus permanece fiel a promessa ao salvar uns “poucos”.os mesmos documentos anteriormente citados fazem referência a isto.
Essa era a questão central desse período era o futuro do povo da aliança:- “Quem de fato constituía o verdadeiro povo de Deus?”. Os escritos acima, mostram que todas as comunidades se colocavam como legitimo povo. Apesar do ponto em comum que todas elas reconheciam (corrupção em relação a lei, a infidelidade de suas lideranças, a hostilidade em relação ao poder), era a natureza exclusivista que os faziam se colocar na posição de escolhidos. O judaísmo de Mateus também compartilhava dessa posição.
Todas as comunidades se viam com a resposta da pergunta constante e essencial, em relação ao verdadeiro povo de Deus.
Esta tentativa de consolidação do Judaísmo influenciou o cenário de Mateus e o nosso entendimento do seu evangelho. O seu evangelho foi uma tentativa de buscar a unidade nesse ambiente sectário.
Capítulo 2
Consolidação e legitimação do Judaísmo Formativo
A destruição de Jerusalém e do templo não foi apenas um golpe político para o povo de Israel. Destruiu também o centro cultural e religioso do povo. Agora precisaria de uma nova síntese religiosa-cultural, para a sobrevivência do Judaismo. Essa síntese seria o judaísmo formativo. Este termo enfatiza a busca do judaísmo por uma consolidação e busca de sobrevivência.
Os fariseus estavam mais posicionados nesse período, o que ajudava a ganhar mais influência. As crenças e a estrutura organizacional fizeram deles a melhor opção. a identidade social e religiosa deles, não exigia mais a presença do templo. Bastava a atividade farisaica aplicando as leis da pureza no lar e a mesa. Faziam uso de várias imagens e temas relativos ao templo.
A organização dos fariseus, no processo de consolidação tem estreita relação com o judaísmo rabínico, no que tange a reconstrução da história. (formação do Judaísmo Rabínico). O processo sociológico de reconstrução teria de recomeçar do início. A comunidade que quisesse reorganizar o povo, teria o desafio de definir, estabelecer e reorganizar o modo de vida.
O simbolismo de Jabne: o começo do fim do sectarismo
O Concilio de Jabne (jâmnia) e possívelmente “Escola”..estabeleceu os rabinos como o corpo autorizado e de ter marcado o surgimento do Judaísmo Rabínico como a forma normativa do judaísmo.
Recentemente tem se questionado o acontecimento, colocando-o como uma lenda Rabínica, embora vários estudos tragam elementos para a compreensão do judeu-cristianismo e o evangelho de Mateus inserido neste contexto de reorganização social da comunidade, compreendendo como um processo muito longo.
Jabne representa o início da ascensão do judaísmo formativo, que no seu início em conflito com a comunidade de Mateus, era mais uma opção para os povos. Ganhou influências para representar vários povos.
A tradição coloca Jabne como sendo uma escola onde os mestres do J F ensinavam e interpretavam a torah para o povo.
O que pode ser dito sobre isto, é que jabne, significou o principio do fim do sectarismo e a possibilidade de reformular e perpetuar o Judaísmo pós tragédia de 70.
Desenvolvimentos institucionais do judaísmo formativo
Após as revoltas contra Roma, os judeus buscam construir novas instituições e estruturas. O judaísmo Formativo, começou a reorganizar a vida social, religiosa e comunitária da comunidade judaica.
Importante observar as evidências do começo desses desenvolvimentos institucionais nos evangelhos e nos vestígios materiais da palestina do século I.
a polêmica em torno da palavra “rabi”. A palavra já existia e foi reutilizada pelo JF, para se referir aos seus líderes e autoridades. Rabino significa a figura central de autoridade do Judaísmo rabínico. Nada indica que “rabi” seria uma referência a autoridade ou um termo técnico do judaísmo do séc I.
Nos evangelhos percebemos em Marcos e João o uso como terno honorífico para indicar honra e respeito. Mateus mostra certa resistência em relação ao termo, embora o significado que eles davam fosse de acordo comum. Mateus ao rejeitar tal termo, quer deixar claro sua intenção de uma “irmandade” baseada no mutualismo. Os títulos e prerrogativas deviam ser evitados. Sua repulsa ao termo está relacionada aos líderes presente em sua comunidade. O uso do termo em Mateus é o começo de uma instituição essencial que chega à sua mais completa expressão no Judaísmo rabínico posterior.
A benção para os dissidentes
O desenvolvimento institucional no judaísmo formativo. O processo de banimento ou exclusão dos que não conformam com a vida e á prática da comunidade. Esse processo mostra o grau de organização da comunidade, como ela se define e o que representa. O Judaísmo Formativo desenvolveu essa prática institucional do banimento, que protegia e definia o grupo. Era comum as comunidades desenvolveram práticas para expulsar aqueles que ameaçassem sua ordem.
Todas estas práticas parecem ter sido trazidas do período pré-70 e adaptado as novas situações. Isso mostra o longo processo sociológico que o Judaísmo Formativo estava envolvido.
Local de reunião
Eram locais simples e modestos, onde o principal objetivo era fortalecer e ganhar visibilidade nas comunidades, através de ocupações de cargos importantes.
“A paradosis dos pais” Tradicionalização do novo movimento
Estas Instituições socais e construções humanas precisam começar a parecer fundamentalmente em algo bem mais estabelecido e permanente. Precisavam de legitimação de suas crenças.
Os fariseus afirmavam suas crenças nos antepassados, embora tenha sido sempre questionada, pelos saduceus, conseguia crédito e autoridade perante o povo. Isso também era uma forma de dizer que eram herdeiros da tradição e o período pós 70 não ia alterar.
Os intérpretes mais precisos da lei: Alei e a Legitimação.
Sem o templo, o culto foi substituído pelo estudo da torah, como atividade central para muitos no judaísmo.
O judaísmo formativo beneficiou ainda de sua herança do judaísmo, ao articular suas práticas e crenças independentes do templo, fazendo apenas o estudo e o ritual da totah.
A lei se tornou o meio de estabelecer a posição dos líderes, como interpretes autorizados. Sendo a torah a vontade divina, o grupo que conseguisse melhor interpretação, teria maior aceitação. A comunidade de Mateus, foi uma das combatentes do Judaísmo formativo, acusando os de distorcer e corromper. A importância da lei era um consenso de ambas as comunidades, o que não concordavam era em relação a interpretação.
O Judaísmo F. adotou várias tradições dos fariseus pré-70 e por isso se colocavam com herdeiros dos seus antepassados.
Capítulo 3
O desenvolvimento social da comunidade de Mateus
No ambiente fragmentado do judaísmo pós-70, tanto o judaísmo formativo com a comunidade de Mateus lutavam para estabelecer ordenar e definir suas crenças e sua vida. Ambos eram influenciados pelo cenário mais amplo da natureza sectária do judaísmo.
A comunidade de Mateus desenvolveu papéis no grupo, posições de autoridade e articulou uma defesa de sua posição em relação à lei judaica. Esses procedimentos serviram para proteger e instruir a comunidade. Os desenvolvimentos sociais dentro da comunidade constituem uma resposta para a competição e o conflito que a comunidade está vivendo.
Escritura, interpretação e tradição em Mateus
A comunidade de Mateus era um movimento novo. Com o tempo, as crenças e procedimentos desse movimento apresentados como estabelecidos e tradicionais. Mateus tenta tradicionalizar as crenças de sua comunidade em relação a vida e ao ministério de Jesus: dar uma autoridade e legitimidade à figura de Jesus e à crença da comunidade nele, que , de outra forma, ela poderia não possuir.
Uma das maneiras mais notáveis pelas quais Mateus atribui um quadro de referencias, mais sagrado e tradicional à carreira de Jesus é por meio de sua aplicação da idéia de cumprimento (pleroma).
As citações de cumprimento
Citações de Cumprimento refere-se especificamente à utilização de uma profecia da Bíblia Hebraica com a afirmação que um determinado evento aconteceu “para cumprir” algo que foi previsto por um profeta.
Em Mateus, mais da metade das citações de cumprimento vem de Isaías. As citações de cumprimento são notas explicativas do autor Mateus para esclarecer ou explicar que algo que aconteceu na vida e no ministério de Jesus tinha de acontecer precisamente para cumprir o que um dos profetas antigos previra.
As citações de cumprimento foram acrescentadas por Mateus para enfatizar alguma coisa sobre Jesus e sua crença nele.
Essas citações em Mateus tem um objetivo apologético – elas explicam e justificam eventos que ocorreram na vida de Jesus e que poderiam talvez ter sido problemáticos para aqueles que mantinham a crença nele como Messias.
Uma razão pela qual Mateus é tão cuidadoso em fundamentar explícita e obviamente ações e eventos da vida de Jesus na Escritura é apresentar um desafio a seus oponentes judaicos. Mateus reivindica as mesmas tradição e escritura que os oponentes judaicos de sua comunidade. Ao alinhar a história de Jesus com as antigas tradições e promessas de Israel, Mateus afirma que as crenças de sua comunidade não são novas, mas estabelecidas e tradicionais. Elas têm sua base nas próprias promessas e tradições da história de Israel.
As citações de cumprimento não são um esclarecimento dos “eventos históricos” da vida de Jesus. Essas citações enfatizam a reivindicação da comunidade de Mateus às mesmas tradições que o judaísmo formativo estava apresentando e reivindicando como suas. Isso levaria a competição e ao conflito. Embora as tradições e as Escrituras de Israel fossem algo que a comunidade de Mateus e o judaísmo formativo tinham em comum, a afirmação de Mateus de que essas tradições e promessas são cumpridas exclusivamente na pessoa e na ação de Jesus certamente provocavam certa tensão entre esses dois movimentos.
Exemplo disso: os paralelos entre Jesus e Moisés na seção que contem metade das citações de cumprimento são tentativas claras de Mateus para emprestar credibilidade e estatura à figura de Jesus.
Jesus e a vida da comunidade de Mateus estão em continuidade com as tradições e promessas da história de Israel. Tudo o que aconteceu “foi para cumprir o que Deus previra por meio dos profetas.” Como resultado desse uso distintivo da Escritura por Mateus, Jesus e, por meio dele, a comunidade de Mateus, são apresentados como cumprimento dessa mesma história e tradição.
As histórias de Conflito
O que as histórias de conflito revelam sobre o uso que Mateus faz da Lei é significativo, especialmente a defesa da interpretação da Lei em sua comunidade diante da oposição. O mais característico quanto às histórias de conflito de Mateus é que apresentam Jesus como um intérprete preciso e verdadeiro da Lei.
3 histórias de conflito:
o A controvérsia do sábado em Mt 12, 1-8
Mateus tirou esta história de Marcos, assim como Lucas. Trata-se de uma controvérsia de Jesus e seus discípulos com os fariseus.
Mateus explicita que os discípulos estavam com fome e por isso arrancaram espigas e começaram a comê-las, embora fosse sábado. Lucas e Marcos não oferecem nenhuma explicação para a ação dos discípulos, Mateus acrescenta a fome dos discípulos para fazer uma conexão mais clara entre as ações dos discípulos e a de Davi no Templo.
Jesus e seus discípulos não violam a lei. Eles discordam dos fariseus quanto à interpretação da Lei, mas não quanto a sua validade. Mateus cita Os 6,6 (“É a misericórdia que quero, não o sacrifício”) para justificar as ações de Jesus à luz de uma aplicação particular da Lei. Os 6,6 é dirigido contra os oponentes de Mateus com referência a Lei.
O tratamento que Mateus dá a essa história de conflito leva a sério a acusação feita pelos fariseus. Ele oferece uma explicação do motivo pelo qual a visão que sua comunidade tinha do sábado é coerente com a Lei e os Profetas, e de fato, possui a verdadeira interpretação.
o Mt 15, 1-20, que trata das questões de pureza ritual
Nesta história tanto Marcos como Mateus (Mt tirou essa história de Mc 7)colocam os fariseus e alguns escribas perguntando a Jesus por que os discípulos transgridem a “tradição dos antigos”. Os discípulos comem sem lavar as mãos e, portanto, não observam as leis de pureza apropriadas. Jesus responde que os fariseus e escribas seguem em oposição aos mandamentos de Deus. Isso porque eles centram-se em questões exteriores, sem perceber que são as questões interiores que torna uma pessoa impura.
Segundo Mateus, Jesus e os discípulos não brincam com a Lei. Mateus e sua comunidade são muito sensíveis a essa acusação. Nesta passagem, Mateus responde a qualquer acusação dos oponentes da comunidade de que ela tenha deixado de lado a lei. Muito pelo contrário, Mateus oferece uma explicação razoável para os discípulos de Jesus, e para aqueles na comunidade que se comportam de maneira semelhante.
o O debate em Mt 22, 34-40 que culmina com o chamado mandamento do amor
Mateus transformou esta perícope em uma história de conflito. Mateus usou essa ocasião do confronto entre Jesus e um escriba para montar outro confronto com os fariseus acerca da interpretação da lei. Nesta passagem, Mateus apresenta o princípio hermenêutico que molda o entendimento e o uso da Lei pela sua comunidade.
O mandamento do amor em Mateus surge como Cânon para a interpretação de toda a Torah. Esse mandamento do amor é o princípio interpretativo autorizado de sua comunidade. Isso de alguma forma descarta a Lei para a comunidade. Significa, porém, que o entendimento e a aplicação da Lei agora são moldados de acordo com o mandamento do amor.
Mt 5, 17-20
Mateus de fato defende a validade eterna da Lei. E, como vimos acima, acredita que tanto Jesus como sua comunidade são seguidores e cumpridores da Lei. O essencial é que o cumprimento da Lei é determinado pela interpretação que se faz dela.
A distinção entre violar a Lei e cumpri-la por meio de uma interpretação diferente é importante. Mt 5, 17-20 introduz as chamadas antíteses, que ocupam o resto do cap. 5. Para Mateus ensinar a Lei está ligado a “atuar” a Lei. A comunidade de Mateus compreende, ensina e põe em prática a Lei. Ao não só ensinar a Lei, mas atuá-la, aplicando os princípios dominantes de amor e misericórdia, está-se cumprindo a Lei e executando de forma adequada a vontade de Deus.
Lei na comunidade de Mateus
A Lei judaica aparecia como uma questão importante e essencial na luta entre a comunidade de Mateus e a oposição. A lei em si não era de forma alguma opcional. Ambos os grupos a reivindicavam e acusavam o outro de distorcê-la. Ela servia como meio de desacreditar o oponente e afirmar sua própria posição.
Como no judaísmo formativo, a comunidade de Mateus estava desenvolvendo um meio pelo qual a Lei tinha de ser interpretada e aplicada. Essa interpretação está intimamente relacionada à ortopráxis: um verdadeiro entendimento da Lei envolve agir segundo a Lei.
Organização da vida da comunidade
Conforme a comunidade de Mateus continuava a sentir pressão e competição por parte do corpo judaico dominante em desenvolvimento e a sentir-se cada vez mais separada desse grupo, ela respondia com o desenvolvimento de suas próprias regras, valores e normas pelos quais seus membros podiam ser guiados. Então, a comunidade de Mateus respondeu ao conflito e antagonismo que caracterizavam sua relação com o corpo dominante nesse mundo por meio da construção de sua própria sociedade. Esses valores e normas, conforme iam sendo expressos e repetidos, começavam a criar um consenso.
A Justiça em Mateus
Justiça --> uma idéia abrangente para ações, comportamento, e disposição dos discípulos e seguidores de Jesus e, portanto, dos membros da comunidade de Mateus.
A justiça é significativa pelo fato de exercer uma função distintiva para a comunidade de Mateus. Mateus escolheu a “justiça” como termo-chave para designar o comportamento e a disposição adequados aos membros de sua comunidade, em contraste com aqueles com quem a comunidade está em disputa.
Essa é a maneira pela qual Mateus procurava assegurar a identidade e a particularidade de sua comunidade e da vida dela em um ambiente hostil. A Justiça no Evangelho de Mateus é um símbolo abrangente que denota as ações e atitudes exigidas dos membros da comunidade. Vista dessa maneira, a idéia de justiça desempenha um papel importante na organização da comunidade e na instrução de seus membros quanto a conduta e ao comportamento adequados esperados deles.
Justiça designa o padrão de comportamento para a comunidade e para o Reino.
Vida comunitária em Mt 5-7
Esta parte do Evangelho tem como foco primário a organização de relacionamentos e comportamentos na comunidade. Os traços e características pessoais dos membros são tornados explícitos. Mt 5-7 representa algo como uma constituição para a comunidade, destinada a instruir e orientar seus membros.
A comunidade de Mateus foi descrita como uma “irmandade”. Apenas no Evangelho de Mateus entre os Evangelhos Sinóticos utiliza com freqüência o termo “irmão” em um sentido metafórico para indicar um membro da comunidade. O Pai-Nosso (M t6,5-15) assume significância, é litúrgica e provavelmente era usada pela comunidade em seus cultos e reuniões. A importância do Pai-Nosso em termos de ordenação da vida da comunidade pode ser encontrada no modo como prece, reiterada e repetida com freqüência pela comunidade, reforçaria os valores e ações compartilhadas por essa comunidade.
Nos caps 5-7 Mateus forneceu instruções sobre relações, culto e as prioridades e valores que devem controlar os membros. Esses valores tendo sua origem em Jesus e tendo encontrado lugar no culto da comunidade, o conteúdo dos caps 5-7 assumiu rapidamente uma importância absoluta e, sem dúvida, desempenhou um papel poderoso na organização da vida da comunidade de Mateus.
Disciplina comunitária em Mt 18
A ordem que estava se desenvolvendo e sendo imposta a vida da comunidade de Mateus é claramente refletida no cap 18. O processo e a finalidade da disciplina do cap 18 têm a ver com membros desviantes e com a resposta da comunidade a esse problema.
O cap 18 como um todo constitui uma unidade textual e visa lidar com o problema da divisão na comunidade, destacando o serviço ao “irmão”, enfatizando o perdão e, se tudo o mais falhar, a instituição da disciplina e da expulsão.
Na vida da comunidade de Mateus, as relações entre os membros devem ser baseadas no serviço no serviço e na deferência mútua. Eles devem aplicar os valores e características associados ao Reino dos céus em suas próprias vidas e relacionamentos.
• Processo de disciplina e expulsão – Mt 18,15-18 : Mt começa sua instrução sobre o membro que peca incentivando os outros membros a reprovar o irmão pecador reservadamente. Neste ponto não há necessidade de que outros membros da comunidade sejam envolvidos. Caso isso não dê resultado, Mt cita a tradição de duas testemunhas (ver em Dt 19,15; Lv 19,7). Se isso não funcionar, a Igreja deve ser notificada. Se a pessoa recusar a notificação da Igreja, tornam-se estranhos a ela.
Outro ponto importante neste capítulo: o perdão e a reconciliação. A parábola da ovelha desgarrada (18,12-13) e a pergunta de Pedro sobre o número de vezes que se deve perdoar um irmão circundam a discussão. A parábola do rei, que conclui este capítulo, reitera o princípio do perdão entre os membros da comunidade.
O desenvolvimento dos modos de disciplina comunitária e a reivindicação de “ligar” e “desligar” são processos significativos na comunidade de Mateus. A comunidade afastou-se das estruturas civis existentes e substituiu-as pelas próprias estruturas.
O desenvolvimento dos modos de disciplina comunitário é importante por 2 motivos: 1º) tais meios estabilizam a comunidade e controlam os desvios e 2º) eles constituem tanto um desafio como um substituto para os processos já estabelecidos no domínio civil fora da comunidade.
Mateus e o domínio civil
A autoridade de ligar e desligar que Mateus atribui a sua comunidade indica um afastamento ou uma rejeição das vias estabelecidas de autoridade civil e jurídica em favor de procedimentos que a comunidade desenvolveu.
Observamos que a comunidade de Mateus considerava os tribunais e o domínio jurídico civil como um ambiente hostil que devia ser evitado a todo custo. Essas estruturas civis representam uma ameaça à comunidade. Nesse aspecto a comunidade de Mateus assemelha-se a uma comunidade sectária, que desenvolve seus próprios procedimentos e estruturas para substituir os do domínio civil.
Mateus e os de fora
Mateus reflete uma desconfiança no “mundo” de outras maneiras além da rejeição das instituições e autoridades civis de seu ambiente. Juntamente com essa rejeição do domínio civil, Mateus revela uma apreensão quanto aos estranhos à comunidade. A forma e a definição da comunidade de Mateus não eram vagas ou amorfas. Mateus tinha um entendimento claro de quem era de dentro e quem era de fora. Ele sabia o que constituía a participação na comunidade. Exigia fidelidade de uma forma não observada entre os outros evangelistas sinóticos.
Institucionalização: Papéis na comunidade
Em determinados pontos, a comunidade de Mateus parece ter estabelecido papéis em seu interior que se assemelham, e de fato, apresentam-se como paralelos dos papéis e funções do judaísmo.
O escriba
Em Mateus, os fariseus situam-se no primeiro plano. A oposição a Jesus e ao Movimento de Jesus está concentrada no partido farisaico. Uma razão pela qual Mateus parece apresentar um retrato mais neutro e equilibrado da noção e do papel do escriba é que, para Mateus, escriba ainda representa um título e uma função válida.
O cargo e a função do escriba estava em desenvolvimento ano ambiente de Mateus. Havia escribas bons e ruins. Os escribas que eram treinados para o Reino dos céus e usavam suas habilidades e ferramentas para o Reino eram bons escribas. Os escribas dos fariseus estavam usando sua autoridade e seu conhecimento para desencaminhar as pessoas. O escriba da comunidade de Mateus será um líder na comunidade e fornecerá tesouros para sua vida. Eles desempenham um papel definido na comunidade de Mateus. Sua instrução e seu conhecimento da Lei são, agora, interpretados à luz dos ensinamentos e do evangelho de Jesus.
Profetas
A natureza e a presença dos profetas na comunidade de Mateus recebeu considerável atenção. A Igreja de Mateus sem dúvidas incluía profetas (Mt 10,41; 23,34). Fica claro, porém, que esse não é um papel de destaque na comunidade. Mt 10,41 é problemático, porque é difícil determinar o que Mateus quer dizer com “profeta”. O contexto mais amplo do pronunciamento no cap. 10 tem a ver com a atividade missionária.
Missionários
O enfoque do papel dos missionários em Mateus se encontra no cap 10. Essa é a versão de Mateus para o envio dos Doze em missão. O Envio dos Doze no cap 10 encontra seu paralelo em Mc 3.
Em Mateus, os doze discípulos (10,1) ou doze apóstolos (10,2) recebem a mesma autoridade carismática de curar e exorcizar, mas Tb a de ressuscitar os mortos (10,8). No relato de Mateus não há um retorno ou relatório sobre a atividade missionária daqueles que haviam sido enviados. Essa passagem pode ser simplesmente uma reflexão histórica ou lembrança de um evento do ministério de Jesus. Mateus reduziu tanto o envio e a missão de cura e pregação dos discípulos que nos deixa em dúvida se esse ministério ainda ocorria de fato em sua comunidade.
O papel do missionário, como originalmente apresentado na Igreja e na Tradição do Evangelho, ainda existe na comunidade de Mateus, mas os missionários não possuem grande autoridade e não restam muitos deles.
Os discípulos em Mateus
Mateus tem um particular interesse pelo papel dos discípulos. Ele emprega o termo cerca de 45 vezes sem paralelos em Marcos ou Lucas. Duas tendências tem sido evidente: uma tem sido ver nos discípulos um reflexo da comunidade de Mateus. Na representação dos discípulos vê-se a vida e a situação da comunidade de Mateus e os compromissos de seus membros. “Discípulos” é compreendido desta forma como um termo eclesiológico, que se tornou uma designação para um seguidor de Jesus na comunidade.
A outra tendência no entendimento do termo discípulo está associada ao que foi chamado de “historicização” da história de Jesus por Mateus. Jesus e os discípulos são colocados no passado sagrado e irrepetível. Nesse caso, os discípulos não refletem a situação da comunidade de Mateus, mas são resíduos históricos do movimento de Jesus e servem para dar suporte e substanciar a visão de Mateus da história da salvação.
O ministério dos discípulos
Há algumas modificações no ministério dos discípulos em Mateus:
• A chamada viagem para o norte de Mc 7,24 é relatada brevemente e sem detalhes em Mt 15,21ss;
• Ao contrário de Lucas, o Jesus de Mateus nunca foi à Samaria;
• A travessia do território da Decápole, em Mc 7,31, é alterada por Mateus de forma que as multidões da Decápole , de além do Jordão, de Jerusalém, e da Judéia vêm até Jesus (4,25);
• Em Mateus eles permanecem essencialmente na Galiléia;
• Há uma concentração inusitada em Cafarnaum em Mateus, não encontrada em Marcos. Mateus registra que Jesus “morou” em Cafarnaum.
Em Mateus, ensino e educação tornaram-se a substância central do ministério dos discípulos em Mateus. O ministério de ensino para os discípulos em Mateus é prefigurado no modo como Mateus apresenta Jesus. Jesus é apresentado como mestre autorizado e efetivo. Isso é evidenciado no Sermão da Montanha, no cap 18, e nos debates sobre a Lei e sua interpretação adequada.
Assim, a ênfase de Mateus no ensino e a transformação do ministério dos discípulos essencialmente em uma função de ensino são desenvolvimentos que ajudam a manter e proteger a comunidade e seu mundo. Ele explica e justifica as crenças e valores da comunidade e oferece uma defesa contra visões e crenças opostas.
A figura de Pedro
Pedro é chamado de “primeiro” entre os discípulos em Mt 10,2 e é o primeiro a ser chamado para ser seguidor de Jesus em 4,18. Há momentos em que fica claro que Pedro é o porta-voz dos discípulos ou o seu representante. Pedro, porém, não é apenas um dos discípulos, ele aparece como um líder. Essa posição de Pedro em Mateus é percebida mais claramente na chamada confissão de Pedro em 16,13-19.
As duas imagens utilizadas por Mateus, “pedra” e “as chaves”, são de particular interesse. O termo “pedra” é usado em outra passagem (7,24) para descrever a pessoa que escuta e pratica o ensinamento de Jesus. Aqui, a rocha, é a verdade, ou seja, o ensinamento de Jesus, e apoiar-se nela resulta em segurança e salvação. Também, Mateus confere a Pedro as chaves e toda a autoridade que representam (Mt 16,19).
Examinando os importantes termos “rocha” e “chaves” em seu contexto mais amplo do sec I e começo do Séc II na Palestina, a afirmação feita por Mateus sobre Pedro ser uma autoridade e um líder aparece ainda mais claramente. Os dois termos indicam autoridade. Apenas Mateus atribui esses termos a uma pessoa. Isso legitima Pedro como um líder comunitário. Os sucessores de Pedro na comunidade desfrutam a bênção e autoridade que Mateus reivindica para Pedro.
Mateus e o Judaísmo
Os desenvolvimentos sociais e as formas de defesa e legitimação evidentes no Evangelho de Mateus constituem respostas à pressão e à autoridade de um corpo e uma instituição judaicos em desenvolvimento no ambiente da comunidade. Os papéis e as estruturas que a comunidade desenvolveu foram respostas à ameaça que sentiam vir do judaísmo formativo.
A comunidade de Mateus construiu normas e valores e, essencialmente, organizou sua vida em resposta e em oposição a seus rivais, descritos por Mateus como os escribas e os fariseus (5,20). Questões envolvendo a compreensão e interpretação da escritura – questões sobre quem realmente cumpre ou pratica a Lei – passaram para o primeiro plano em Mateus.
Ao contrário de seus oponentes, Jesus e seus seguidores não agem de uma maneira que viola a Lei e a tradição; suas ações na verdade, são o próprio cumprimento da Lei. Jesus, como Moisés no passado, é o Líder do verdadeiro povo escolhido por Deus. Isso surge como uma reivindicação de exclusividade.
Vários desenvolvimentos da comunidade de Mateus têm como alvo especificamente o judaísmo formativo. Mateus definiu as crenças e a vida da comunidade em oposição às do judaísmo.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de março de 2008
A suspeita da modernidade
A partir de 1830, enquanto avançava, a modernidade foi objeto de uma suspeita crescente, provocada pelo fracasso nos setores da autonomia subjetiva,epistemológica e política, que a própria modernidade havia fundado. Não se chegou a uma avaliação da
sexualidade que fi zesse justiça em particular à especifi cidade da mulher; não se atingiu o domínio equilibrado do cosmos, nem o equilíbrio social, político e internacional. Ao mesmo tempo, novas disciplinas, nascidas com a modernidade ou com a contestação da modernidade, que indicamos sob a denominação genérica de ciências humanas, alimentavam a suspeita ao valorizar dimensões históricas ou estruturais do
homem cuja ignorância ou desconhecimento levaram aos fracassos assinalados.
Esta suspeita muitas vezes atinge extensões consideráveis. Incluimo-la num período ainda maior que a modernidade, declarada afi nal como o “fecho da civilização ocidental”. Este diagnóstico pode levar a resultados totalmente diversos. Um deles é o desejo de um mundo novo: reconstruir pouco a pouco a ética (não-violência, justiça, paz, libertação dos pobres e da mulher), defi nir ações a partir desta perspectiva (no nível político ou não governamental) e procurar uma reorganização política mais justa para as comunidades humanas. Outro é a constatação desesperada
da “era do vazio”, o retorno aos positivismos despersonalizados, não mais no nível da ciência, mas da “comunicação” (estruturalismos exacerbados), num salve-se-quem-puder individualista. Ou então revaloriza-se a “busca espiritual”, sempre vinculada (sob diversas formas) à busca angustiada do Uno: espera heideggeriana; místicas orientais; retorno de Eckhart e da mística apofática no Cristianismo. De todo modo,
impera o regime do pensiero debole e, enquanto isso, a era das grandes sínteses, dos grandes projetos, parece encerrada.
Contudo a suspeita não poderia indicar o fim da modernidade: a modernidade revelou ao homem algumas de suas dimensões imanentes e abriu campo para a criatividade, de modo que em muitos casos se atingiu um ponto de não retorno. A crítica da razão
sufi ciente e liberal não poderia se transformar em rejeição da razão ou rejeição dos setores em que esta razão discerniu o verdadeiro e operou o possível, por
exemplo, na ciência e na técnica e, mais genericamente, nas áreas em que a matemática manifesta sua efetividade. Trata-se antes de saber manipular a suspeita
de modo que os fracassos possam ser superados sem que a modernidade em si seja posta em xeque.
sexualidade que fi zesse justiça em particular à especifi cidade da mulher; não se atingiu o domínio equilibrado do cosmos, nem o equilíbrio social, político e internacional. Ao mesmo tempo, novas disciplinas, nascidas com a modernidade ou com a contestação da modernidade, que indicamos sob a denominação genérica de ciências humanas, alimentavam a suspeita ao valorizar dimensões históricas ou estruturais do
homem cuja ignorância ou desconhecimento levaram aos fracassos assinalados.
Esta suspeita muitas vezes atinge extensões consideráveis. Incluimo-la num período ainda maior que a modernidade, declarada afi nal como o “fecho da civilização ocidental”. Este diagnóstico pode levar a resultados totalmente diversos. Um deles é o desejo de um mundo novo: reconstruir pouco a pouco a ética (não-violência, justiça, paz, libertação dos pobres e da mulher), defi nir ações a partir desta perspectiva (no nível político ou não governamental) e procurar uma reorganização política mais justa para as comunidades humanas. Outro é a constatação desesperada
da “era do vazio”, o retorno aos positivismos despersonalizados, não mais no nível da ciência, mas da “comunicação” (estruturalismos exacerbados), num salve-se-quem-puder individualista. Ou então revaloriza-se a “busca espiritual”, sempre vinculada (sob diversas formas) à busca angustiada do Uno: espera heideggeriana; místicas orientais; retorno de Eckhart e da mística apofática no Cristianismo. De todo modo,
impera o regime do pensiero debole e, enquanto isso, a era das grandes sínteses, dos grandes projetos, parece encerrada.
Contudo a suspeita não poderia indicar o fim da modernidade: a modernidade revelou ao homem algumas de suas dimensões imanentes e abriu campo para a criatividade, de modo que em muitos casos se atingiu um ponto de não retorno. A crítica da razão
sufi ciente e liberal não poderia se transformar em rejeição da razão ou rejeição dos setores em que esta razão discerniu o verdadeiro e operou o possível, por
exemplo, na ciência e na técnica e, mais genericamente, nas áreas em que a matemática manifesta sua efetividade. Trata-se antes de saber manipular a suspeita
de modo que os fracassos possam ser superados sem que a modernidade em si seja posta em xeque.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Dos Milagres
O haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
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